Os jornais e o jornalismo na era digital
Imprensa
21-07-2018

Os jornais e o jornalismo na era digital

LUÍS PAULO RODRIGUES *

A data de 1 de julho de 2018 marca mais um dia negro para a imprensa portuguesa. O “Diário de Notícias”, que era o jornal diário mais antigo do continente, fundado em 1864, passou a ter só uma edição impressa por semana, aos domingos.
Foi mais um jornal falido no papel, com tiragens escandalosamente irrisórias, que, em nome de uma alegada “reestruturação”, que não passou de uma drástica redução de custos, suprimiu as edições em papel de segunda a sábado.

Não passamos a ter um novo “Diário de Notícias”, mas um site de notícias, praticamente iguais às de outros sites, sob a capa de uma marca de jornalismo prestigiada, mas sem dinheiro para pagar a jornalistas que possam fazer jornalismo de qualidade e investigação a sério. No fundo, mais um passo em direção ao abismo, para onde têm caminhado muita imprensa.

A era digital em que vivemos começou a democratizar-se nos anos de 1990. Em duas décadas, a revolução digital e tecnológica não parou e, estando a comunicação na base dessa revolução, atingiu de forma vertiginosa o jornalismo e o negócio que sustentava os jornais em papel, mas também a rádio e a televisão.

Os meios de comunicação assentes em velhos modelos de negócio estão todos tremidos, ou vivem artificialmente, sem futuro pela frente. Basicamente, porque entraram no mercado para viver da publicidade e a publicidade é cada vez mais escassa. Por uma razão fundamental: a Internet deu às empresas e organizações a possibilidade de comunicarem diretamente com os seus públicos. Um exemplo: hoje, não precisamos de ler os jornais locais para estarmos informados sobre as atividades da Câmara Municipal.

Qualquer empresa, para ter sucesso no seu mercado, precisa de fazer jornalismo – o chamado “jornalismo de marcas” – para conquistar os seus clientes através dos conteúdos. Como comunicam diretamente com o público, as empresas e as instituições também passaram a dispensar o investimento em publicidade nos jornais que, tradicionalmente, era a principal fonte de receita das empresas jornalísticas.

Ao mesmo tempo, os jornais ignoraram a diferenciação e a qualidade dos seus produtos jornalísticos e continuaram a fazer jornalismo como se não houvesse Internet, perdendo a capacidade de surpreender os leitores, tanto no papel como no espaço digital.



Não me atrevo a prever o que será o jornalismo e a comunicação daqui a cinco ou 10 anos. É uma área que está em mudança permanente. O que parece certo é que caminhamos para um tempo em que cada pessoa, tendo talento e interesse, pode criar o seu próprio jornal na Internet e até pode viver dele com um salário muito interessante.

O que mudou com a Internet é que passamos de um tempo em que poucos comunicavam para muitos (massas) para um tempo em que muitos comunicam para poucos (nichos). A vantagem para quem comunica é que os nichos são audiências mais qualificadas. A desvantagem das empresas de jornalismo é que, com tanta gente a produzir informação, a notícia perdeu valor.

Na sequência da Revolução Industrial, os criadores de cavalos também perderam mercado com a invenção do automóvel, mas o negócio equestre transformou-se, sendo hoje um negócio de luxo para consumidores com grande poder de compra.

Será possível acontecer o mesmo no jornalismo? Talvez, não sabemos ao certo. Uma possibilidade seria transformar os jornais em produtos de luxo: se um jornal custar 5 euros, em vez de 1 euro, para poder pagar um salário mais justo aos jornalistas e publicar boas entrevistas, boas reportagens e notícias bem enquadradas, ou seja, conteúdos que não encontremos na concorrência e que sejam úteis para a vida das pessoas, talvez valha a pena comprar. O que vale para um jornal impresso vale para uma assinatura digital.
 
Atualmente, em nome de uma concorrência desenfreada, todos querem dar a mesma notícia. E poucos se importam com a qualidade do produto que fazem chegar aos leitores. Na Internet, até dão a notícia incompleta só com o título, ficando a atualização para depois. Isso não é jornalismo. É outra coisa.

Obviamente, essa correria pela rapidez de um exclusivo que afinal é de todos retira credibilidade ao jornalismo. Ora, o jornalismo de qualidade tem o seu tempo e não pode estar refém do tempo instantâneo da Internet. Mas esse jornalismo tem um preço, que os leitores estarão dispostos a pagar se tiver qualidade e se os seus conteúdos forem diferentes daquilo que já encontram gratuitamente na Internet.

* Texto publicado na edição comemorativa do 27º aniversário do jornal semanário “Opinião Pública”, que se publica em Vila Nova de Famalicão e do qual fui cofundador e primeiro diretor entre 1991 e 1993
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