Presidente da Ucrânia _ Genya Savilov _ Getty
Comunicação Política
31-03-2019

Como um comediante foi o mais votado nas eleições para Presidente da Ucrânia

LUÍS PAULO RODRIGUES

A Ucrânia, com 35 milhões de habitantes e três milhões de imigrantes, deu a vitória a um comediante na primeira volta das eleições para Presidente do país, realizadas este domingo. Não é ficção, mas é um caso em que a ficção toma conta da realidade. Literalmente.

Na série "O Servidor do Povo", que protagoniza na televisão ucraniana, Volodymyr Zelensky interpreta o papel de um professor revoltado com a corrupção que decide concorrer às eleições presidenciais, sendo eleito contra todas as expectativas. Isto é a parte da ficção.

Na parte da vida real, o ator, de 41 anos, liderou as sondagens para as eleições presidenciais da Ucrânia e venceu a primeira volta, este domingo, 31 de março de 2018. No país, tem um problema contra o qual já se revoltara na ficção (a corrupção). A guerra civil com os pró-russos é outro dos problemas a enfrentar pelo ator que pode tornar-se presidente.

Esta vitória do comediante Volodymyr Zelensky, que nunca tivera qualquer experiência política, pode ocupar um lugar nos compêndios de comunicação política, pois demonstra com enorme clareza que, na sociedade mediática em que vivemos, em que a imagem prevalece sobre o conteúdo, qualquer candidato pode ganhar eleições desde que interprete bem um determinado papel. E que consiga, evidentemente, entender os eleitores e apresentar um discurso com algumas ideias simples e claras, que respondam aos anseios populares.

Com os países e as democracias enfrentando problemas cada vez mais complexos e com a classe política manchada pela corrupção e pelo nepotismo, os cidadãos dão o seu voto ao candidato mais espetacular, que prometa mudar alguma coisa, ainda que tudo possa ficar na mesma ou pior. No fundo, os eleitores tendem a escolher o personagem que preencha o vazio das propostas políticas dos políticos tradicionais. Foi nesse contexto que os Estados Unidos escolheram Donald Trump e o Brasil se converteu a Jair Bolsonaro.

Perante meios de comunicação que valorizam o incidente em detrimento da questão de fundo, é o candidato mais espetacular – ou mais conhecido por qualquer coisa, independentemente das suas ideias políticas –, quem polariza as atenções da informação e do entretenimento televisivos e, por consequência, do público eleitor, o que desvia para o limbo do processo eleitoral a discussão das ideias políticas e dos reais problemas da sociedade.

E, mesmo com a Internet e as redes sociais, a televisão continua a ter grande influência nos processos eleitorais.

Caso a Ucrânia confirme a eleição de um comediante para Presidente, e se a isso juntarmos outros eleitos antissistema noutros pontos do globo, uns dirão que estamos perante uma crise sem precedentes do sistema democrático. Outros, mais benévolos, dirão que a democracia é tão virtuosa que até é capaz de eleger pessoas que não faziam parte do sistema partidário.

Aguardemos por aquilo que vai acontecer em Kiev.

A título de curiosidade, refira-se os ucranianos já foram a maior comunidade imigrante em Portugal (cerca de 62 mil em 2001), estando reduzidos a 32 mil segundo números do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras relativos a 2018.

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