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22-03-2017

Dijsselbloem e Carlos Carreiras. A comunicação e a crise do homem público

LUÍS PAULO RODRIGUES

Este texto é sobre as polémicas declarações do holandês Jeroen Dijsselbloem, o português Carlos Carreiras e a decadência acelerada do homem público. Com tantos meios de comunicação e tantas oportunidades para falar sobre tudo e também sobre nada, os protagonistas do espaço público mediático tendem a não refletir muito naquilo que dizem.

No fundo, estão tão expostos publicamente que deixam de ter momentos da esfera privada. E acabam por dizer em público o que pensam em privado. Só assim se entende que tantas figuras públicas com responsabilidades nas suas áreas de ação digam tantas coisas que consideramos absurdas e geradoras de grandes polémicas.

Mas nem tudo é mau. Se um responsável político verbaliza em público aquilo que genuinamente pensa em privado estaremos perante a face que nos interessa conhecer de alguém, que é a sua verdadeira face. Ou a face da verdade. Que pode gerar a nossa aceitação ou a nossa repulsa.

É por isso que eu costumo dizer que a Internet, particularmente através das redes sociais, enquanto espaço público de partilha e difusão de informação, contribuiu para aumentar a verdade e a transparência no espaço mediático.

Vem esta reflexão a propósito das estúpidas declarações de ontem, 21 de março, de dois responsáveis políticos: o presidente do Eurogrupo, um socialista holandês cujo nome não consigo fixar sem ir ao Google ver como se escreve, e Carlos Carreiras, coordenador das eleições municipais do PSD, atualmente o maior partido de direita na oposição ao governo de esquerda em Portugal.

O primeiro diz que os países do sul gastam o dinheiro em mulheres e álcool (ver aqui: goo.gl/ISFVWF) e o segundo, que deveria ser o primeiro a defender o desígnio coletivo do seu partido, revelou que lhe será indiferente a vitória ou a derrota do PSD nas eleições municipais de Lisboa, a capital do país (ver aqui: goo.gl/oi74H2).

Num mundo civilizado, ou numa Europa normal, estas afirmações seriam suficientes para que os seus autores apresentassem imediatamente a sua demissão, nem que fosse por vergonha da triste figura em público. A questão é que vivemos no tempo em que tudo é possível, inclusive, dizer o impensável e ignorar as consequências. Infelizmente, em muitos casos, isso é revelador da fraca qualidade dos protagonistas da política atual, seja no âmbito local, nacional ou internacional.

E para este cenário também contribuem os meios de comunicação. Carlos Carreiras, por exemplo, até foi brindado com um convite de uma estação de televisão especializada em informação para explicar melhor a asneira política que tinha dito. Do senhor holandês, que preside a uma instituição europeia e contribuiu para uma maior divisão da Europa, também não consta que se tivesse demitido.

Isto não acontece por acaso, nem é particularmente novo. A nova comunicação, rápida e instantânea, apenas divulga muito mais rápido e em grande escala.

Na década de 1970, o sociólogo e historiador norte-americano Richard Sennet escreveu “O Declínio do Homem Público - As Tiranias da Intimidade”, uma obra clássica da sociologia contemporânea, que percorre uma das questões mais polémicas do nosso tempo: a relação difícil entre o domínio público e o privado.

Nesse livro, encontramos uma perspetiva sobre a relação entre a vida pública e o culto ao indivíduo e ao individualismo que ajuda a explicar episódios absurdos a que assistimos no espaço público mediático, os quais acabam por ser sinais do fim de uma civilização, em que cada um procura cuidar de si.

Este desequilíbrio da civilização, como observa Sennet, começou na era Moderna, que correspondeu ao apogeu da civilização ocidental, nos séculos XIX e XX, refletindo-se de forma avassaladora no mundo em que vivemos agora.

Cada país fecha-se sobre si próprio, como temos visto, desde a Europa aos Estados Unidos, e, perante a derrocada da família tradicional que se juntava todos os dias à hora do jantar, cada indivíduo faz o mesmo, voltando-se para si mesmo. São os reflexos de uma cultura urbana e capitalista.

Assim, o presidente do Eurogrupo, que em tempos enganou toda a gente com um mestrado em Economia Empresarial que afinal era falso, defende os países mais ricos da Europa e exclui e atira para o grupo dos malcomportados os países europeus mais pobres que ele considera serem gastadores de dinheiro em mulheres e álcool, enquanto o coordenador autárquico do PSD parece estar indiferente face ao sucesso eleitoral do seu próprio partido.

Com o declínio do Estado, que acontece todos os dias em todo o mundo, cai também o homem público. E os problemas tendem a ser privados em maior número. Ora, neste mundo do narcisismo desvairado e da competição desenfreada, a privatização da existência assumiu proporções tais que o “eu” invade constantemente o já tão depauperado espaço do outro, ou o espaço de todos.

Ora, em minha opinião, é esta atitude em que assentam declarações públicas tão destituídas de sentido coletivo, como aquelas que nos mostram as que foram proferidas por Jeroen Dijsselbloem e Carlos Carreiras.
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